sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Estimativas de Temperatura por Satélite: Como distorcer uma informação além do limite

Pseudociência recebendo resposta. Eu e vários colegas
cientistas questionamos o Comitê de Ciência, Espaço
e Tecnologia do Congresso dos EUA pelo twitter.
Neste último dia 03 de Janeiro, a conta do Comitê de Ciência (cof, cof), Espaço e Tecnologia do Congresso dos EUA no twitter publicou, no miniblog, a seguinte frase altissonante: "Dados de satélite contam uma história que os alarmistas do clima não querem ouvir. Não se ajusta à narrativa deles." E completa com um link. O link, por sua vez, nos leva a uma publicação na página de Roy Spencer, com o título "Satélites globais: 2016 estatisticamente não [foi] mais quente que 1998". Spencer é um velho pesquisador da Universidade do Alabama, em Huntsville (UAH) que embora tenha tido uma carreira de verdade no meio científico, optou por ser um dos poucos que, no meio acadêmico, se prestaram ao papel lamentável de dar suporte ao negacionismo climático. Ele é figurinha repetida nos eventos promovidos pelo Instituto Heartland, uma organização financiada pela indústria de combustíveis fósseis para propaganda anticiência, valendo-se da experiência que adquiriu ao dar suporte à indústria do tabaco quando esta tentava evitar que medidas de restrição ao fumo fossem tomadas, afetando seus lucros. Spencer também é convidado para defender grandes empresas do ramo fóssil como a Peabody (assumidamente a maior companhia privada de carvão do mundo).



Spencer não é apenas negacionista climático. Ele se tornou um defensor do chamado "design inteligente", a versão modernizada do velho criacionismo. Então, embora tenha doutorado em Meteorologia e ocupe um posto no meio acadêmico, não é exatamente uma pessoa afeita a aceitar fatos científicos bem estabelecidos. Mas não é obviamente um argumento ad hominem que resolve a questão. É ou não verdade a afirmação de que 1998 e 2016 estariam "empatados", talvez ressuscitando o falso mito de que o aquecimento global teria parado? Os dados de satélites estariam contradizendo as informações geradas por outras fontes, incluindo a rede de observações de superfície? Testemos!

OS DADOS DE SPENCER REFORÇAM QUE O AQUECIMENTO GLOBAL É REAL!

Pelo visto, a primeira coisa que o Sr. Roy Spencer precisa é
retornar aos bancos da universidade e fazer uma senhora revi-
são de estatística... Ou então parar com tanta desonestidade...
O trabalho é facilitado pelo fato de Spencer apresentar os números das estimativas da UAH na própria publicação, sendo que ele, é claro, chama atenção para as anomalias em 1998 e 2016 para dar suporte à sua afirmativa: +0,50°C e +0,48°C, respectivamente. À primeira vista, o que Spencer afirma poderia fazer sentido, mas não se faz estatística com apenas dois dados, certo? É preciso olhar para o conjunto da amostra... Foi o que fizemos...

Uma primeira análise estatística consiste em aplicar uma regressão linear aos dados. Qual foi o resultado? Um aquecimento bastante nítido de 0,124°C por década (0.07981 a 0.1672, considerando a incerteza), um resultado estatisticamente para lá de robusto (correlação de 0,69, p < 0.0001).

Não satisfeitos, rodamos o teste estatístico para tendências de Mann-Kendall. Sem entrar nos detalhes do teste, uma das variáveis importantes para ele é a diferença entre a quantidade de aumentos e reduções entre membros da série. Então mesmo que a anomalia de 2016 não tivesse superado numericamente a de 1998, se houvesse mais aumentos de temperatura entre anos anteriores e anos posteriores tomados dois a dois a partir de um valor crítico, o teste de Mann-Kendall indicaria que estatisticamente a tendência é quase indubitavelmente de crescimento. Das 703 comparações entre pares de anos, temos 536 aumentos de temperatura do ano anterior para o posterior, 162 reduções e 5 empates. A estatística S nos fornece 374 para Zs = 4,69. Quem manja de estatística sabe que isso aí está muito para lá de significativo (99,9999%).

Dados de superfície da NOAA mostram aquecimento a uma
taxa de 0,154°C por década.
A conclusão é que aquilo que o Sr. Roy Spencer e os membros do Comitê de Ciência (cof, cof), Espaço e Tecnologia do Congresso dos EUA vendem como argumento negacionista é, na verdade, mais uma evidência cristalina do aquecimento global. O que espanta é a desonestidade de manipular a informação e a facilidade com que tanta gente compra essa manipulação e a replica.

HÁ OUTROS DADOS DE SATÉLITE ALÉM DO UAH

Outro aspecto importante do discurso de Spencer é se referir aos satélites, como se toda estimativa da anomalia de temperatura corroborasse exatamente com seus dados. Claro, se isso acontecer, teríamos, como mostramos, mais evidências reforçando a realidade do aquecimento global.

No canal TTT ("temperature total troposphere"), a RSS for-
nece uma estimativa de aquecimento maior não apenas do
que a UAH, mas maior do que aquela calculada a partir de
dados de estação de superfície.
Acontece que, ao mesmo tempo que os dados da UAH foram divulgados, a Remote Sensing System (RSS) também liberou sua estimativa. No site, a RSS anuncia que "2016 foi o ano mais quente desde que o registro por satélite iniciou em 1979. O recorde anterior, por ocasião do grande El Niño de 1998, foi superado em 0,31 graus Fahrenheit (0,17°C)". Os dados do própro site da RSS apontam para uma taxa de aquecimento maior do que a estimada pela UAH, sendo 0,135°C/década no canal TLT (baixa troposfera) e 0,180°C/década no canal TTT ("troposfera total").

Da esquerda para a direita, estimativa de aquecimento pela
NASA (superfície), BEST (superfície), RSS (satélite) e
UAH (satélite). Embora forneça um valor menor que as
demais bases de dados, ainda assim UAH exibe um aqueci-
mento bastante evidente.
A existência de divergências entre os dados da UAH (preparados por Spencer) e os demais (tanto os dados de satélite RSS quanto as medidas de superfície) não é novidade. No ano passado, alguns pesquisadores chegaram à conclusão de que o tratamento dado nos dados da UAH pode conter um erro de viés importante.

Na verdade, estimar a temperatura da atmosfera a partir de satélites não é exatamente trivial, pois há importantes fontes de erro, incluindo a tendência de os satélites perderem um pouco de altitude gradualmente ano após ano, e correções que são necessárias por conta do ciclo diurno. O artigo de Po-Chedley et al., publicado no Journal of Climate, sugere exatamente que o tratamento dado pelo grupo de Spencer ao ciclo diurno não é o mais adequado, produzindo um erro sistemático de subestimação das temperaturas.

ATER-SE À CIÊNCIA, COMBATER A MANIPULAÇÃO

Ainda que possa haver questionamentos à metodologia aplicada pela UAH e que o dado que ela produz possa conter um erro sistemático para menos, o fato é que mesmo assim o que emerge deles não dá apoio aos discursos do Comitê do Congresso dos EUA e de Roy Spencer. Nos próprios dados de Spencer, o aquecimento global aparece nitidamente, passando em todo teste estatístico. Não há debate científico ou mesmo qualquer conversação racional possível se se ignoram os fatos e os dados.

Pinóquio, após contar uma "pós-verdade"
Daí, o que se pode concluir de todo esse episódio é que cada vez mais o negacionismo se resume à distorção da realidade, grosseira e sem limites. Não se trata mais de "torturar os dados", mas simplesmente de ignorá-los e apresentar uma narrativa completamente alienada da realidade, como fizeram Roy Spencer e os negacionistas do Congresso. O que é importante nesse caso é que as mentiras (que ganharam o eufemismo de "pós-verdade") sejam devidamente rechaçadas, o quanto antes, e de maneira muito direta e clara para o público. O que eu e outros colegas cientistas fizemos ao respondermos de pronto assim que a mentira emergiu no twitter, por mais que possa consumir tempo e ser frustrante muitas vezes, é necessário. Como nunca.

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